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Jorge de Pina


Entrevista com Jorge de Pina

 

Realizada dia 02 de fevereiro de 2010, no Criadouro Jotage no Rio de Janeiro.

 

Por Walter Ansante

 

1) Como foi seu primeiro contato com o hobby?

 

      Por volta de 1960 aproximadamente, eu ganhei um pombo macho e logo no dia seguinte eu consegui um pombo fêmea. Minha mãe que morava em um apartamento não gostou e mandou eu me desfazer dos dois, daí eu fui numa lojinha e troquei o casal de pombos por um casal de periquitos, um macho verde claro e uma fêmea opalino, a diferença do preço eu me comprometi a pagar com jornal velho. Durante muito tempo eu fiquei levando jornal pro cara. Depois de algum tempo eu consegui um senhor idoso, Mário Guimarães, que não era criador mas tinha uns periquitos grandes pra mim, mas não era os inglêses. Eu sonhava, não dormia mais, fico arrepiado até hoje, ele queria vender, mas eu não tinha dinheiro, até que eu consegui comprar um casal e ia pra casa dele todo dia, no final eu acho que ele acabou gostando de mim, enfim isso passou. Mas eu voltei naquela lojinha e comprei uma fêmea arlequim dominante cinza. Ao chegar em casa vi que a fêmea tinha um anel no pé, fiquei incomodado com isso e a levei de volta pra trocar. Disse a ele que eu não a queria mais, achava que ela era um tipo de pássaro para experiências, testes e ele disse que não. Ele estava na porta da loja e fez um gesto, ele disse que era de um criador, um cara registrado, que vai pra exposições, ele mora ali ó e apontou a direção, eu fiquei calado e saí atrás desse criador. Depois de muitas idas e vindas, passei num lugar e consegui ouvir barulho de periquito, aí eu olhei e tinha um rapaz na sacada, eu perguntei se ele criava periquitos e ele disse que eram do seu avô, o Sr. Edgar Martins, que me convidou pra entrar, me mostrou os bichos, mas como sempre eu não tinha 1 centavo, perguntei como eu fazia pra ficar sócio do clube, clube ornitológico do Rio, isso foi em 1964, enviei a proposta, cheguei em casa e minha vó me deu de presente de natal. Aí eu recebi minhas anilhas e pude anilhar meus bichos. (jorge de Pina - criador e Juiz)

 

2) Como era hobby no Brasil naquela época?

 

      A gente tem que ver que, pra que eu pudesse ter entrado nesse clube, pra que eu pudesse hoje estar fazendo palestras, pra que eu pudesse hoje exportar periquito, as pessoas começaram tudo isso lá atrás. O clube não era nada, não tinha periquito nenhum, a gente não tinha conhecimento, porque quase ninguém falava inglês, era complicadíssimo, era um nada com ponto de interrogação na frente, absolutamente nada. Eles faziam da seguinte forma, eles se juntavam, eu só assistia, e cada um dava um dinheiro pra trazer pássaros inglêses. Tinha um piloto da Pan Air que trazia pra eles. Tinha um cara que era encarregado de recolher os pássaros de vários criadores inglêses e levá-los para o hotel que o piloto da Pan Air ficava hospedado. Isso era final dos anos 50.

 

3) Como começou seu plantel?

 

      Eu sempre tive em mente, que o dia que eu pudesse, eu ia fazer uma coisa diferente, eu ia fazer um outcross durante alguns anos, até criar indivíduos que tivessam exatamente aquilo que eu quero, ou seja, o outcross é uma faca de 2 gumes, você vai perpetuar o que tem de bom e de ruim. Eu vendi um apartamento pra começar a criar, eu comprava hum macho do Gerald Binks, uma fêmea do John Woods, uma fêmea do Harry Bryan, se eu tivesse 10 bichos do Binks, usava com 10 bichos diferentes, porque eu queria ver o que eles tinham, eu queria ver uma coisa a mais. O outcross tem uma coisa de ruim, você tem estar muito treinado, você vê o exterior mas não sabe o que tem dentro, não dá pra segurar qualidade, ela escorre feito água do seu dedo. Você não têm aquilo perpetuado no bicho, então eu fiz outcross durante muito tempo, durante quase todo os anos 80. Eu comprei todos os bichos bons que vi na minha vida, aliás eu faço isso até hoje. Em 1985, eu comprei uma fêmea do Roy Aplin por 700 libras esterlinas, dentre outros. Então daí, depois que eu consegui os indivíduos que eu achava que poderiam perpetuar alguma coisa, eu consegui fazer o in-breeding, que é o que eu faço hoje em 90% da minha linhagem. Alguns anos atrás, eu introduzi pássaros do Binks que vinha de Harry Bryan, Jimmy Huton, Sadller/Ormerod. Pra mim não tem pássaro alemão, inglês, porque todos saíram da Inglaterra, inclusive Lutolf. Pra mim o grande mestre é o Molkentin, criador alemão radicado atualmente na África do Sul, ele iniciou o Mannes. O Gerald Binks é o papa dos papas, ele escreve muito bem, ele passa suas idéias muito bem, tudo que ele faz é top, até o criadouro dele.

 

4) Fale sobre suas últimas aquisições de pássaros europeus.

 

      Em 1999 Jim Mofatt morreu e a viúva do Jim deu todos os pássaros para o Gerald. E eu tive o prazer de conviver com o Binks durante muitos anos, eu ficava na casa dele muitas vezes, e eu pude ver que ele estava criando uns bichos que me interessavam, verdes claros, e eu consegui trazer 5 fêmeas filhotas verde claro do Gerald. O Roy Aplin estourou agora ano retrasado, mas essa linhagem dele é antiga, e eu trouxe 2 bichos dele em 2000 dessa linhagem canela verde cinza, que já era bem pontencial, 1 fêmea cinza e 1 fêmea asa canela verde cinza. Essa é a linhagem que explodiu agora e deu um dos melhores bichos que eu já vi, um asa canela verde cinza do Roy Aplin que só não foi foi best in show em 2007 porque estava com algumas penas tortas, era grande, limpo, largo, pena certa, aquilo é uma arte, você arrepia. Jimmy Huton foi um dos grandes criadores, ele ganhava pouco porque seu criadouro era muito pequeno, ele já faleceu, ele tinha criado uma cintilante verde cinza, um dos grandes bichos que eu já vi, era enorme, posição no poleiro correta, um negócio de babar, mas não dava pra comprar, ele pediu um valor alto demais e outro detalhe, a fêmea tinha um anel de 10 anos atrás...

 

5) Como surgiu a idéia de você criar uma exposição no Brasil com base no modelo inglês?

 

      Naquele tempo não tinha internet, e a gente começou a criar bicho bom, como é que a gente ia fazer? Uma grande exposição, que chegou a ter 1800 periquitos, foi a maior exposição das Américas, tive que tomar calmante, foi dentro do banco, virava a noite montando... O que que eu fazia? Eu trazia um cara que conhece, que é formador de opinião, de cada país, eu comecei a fazer isso em 1989. Na primeira reportagem que o Roy Aplin fez, ele escreveu no Cage Bird: "Periquitos do Brasil de tirar a respiração", daí eles começaram a falar Brasil, Brasil, Brasil, e os caras queriam vir ver, o Brian Baster, juiz e editor do jornal escreveu 5 anos depois que foi a série mais forte de verdes claros que ele julgou na vida, e eu fiz do 1º ao 5º lugar, naquele tempo dos 40 melhores eu botava 39, 38 pássaros, punha tudo.

 

6) Você tem alguma cor favorita? Já criou dando preferência a alguma cor?

 

      Durante muito tempo eu só criei verdes claros de asa preta (normais), mas o radicalismo só leva a derrota, imagina que tipo de verde claro que era, segundo o Brian Baster os melhores verdes claros que ele já viu, todos meus do 1º ao 5º lugar, mas eu fiquei entusiasmado com isso, e vendia pra Inglaterra todos os canelas, Moizer só vinha buscar canelas, ele não criava canelas, eu não gostava de canelas, e vendi muito bicho bom que eu não devia ter vendido, aí um belo dia voltei atrás, reformulei e voltei a criar canelas, até porque o canela é importante, o canela faz uma pena mais larga, mais fofa.

 

7) Você prefere introduzir no seu plantel aves com sangue fechado ou sangue aberto? (Supondo que ambas tenham a mesma qualidade).

 

      A maior ganrantia que você tem é sangue fechado, eu prefiro um bicho homozigoto com certeza, um bicho de sangue fechado.

 

8) Como você escolhe um pássaro para introduzir no seu plantel?

 

      A única maneira de você melhorar seu plantel é selecionar voltado para alguma finalidade específica, por ex: o cara têm problema de falta de bolas do colar, aí quando ele vai comprar, repor, ele esquece isso e compra um bicho fora de série, excepcional só que com bolas pequenas, então ele não selecionou pra aquilo, ele vai continuar com o mesmo problema, bicho fora de série sem bolas, você comprar um bicho de cabeça suja, só se for muito imprescindível por alguma razão.

 

9) Qual é sua opinião sobre os cabeças sujas?

 

      Nós aqui no Brasil ainda estamos engatinhando, a maioria de nós aqui ainda engatinha, um pássaro de cabeça suja ninguém bota no site, principalmente na Alemanha, Inglaterra, ninguém mostra um bicho de cabeça suja, esconde na última gaiola lá embaixo pra criar, aqui a gente ainda acha que é uma maravilha. Quem cria bicho pra exposição, cria bicho pra ganhar a exposição e pra ganhar a exposição não pode ter cabeça suja. O nosso mercado ainda não é exigente, mercados como Holanda, Alemanha, Suiça, Europa de forma geral e Inglaterra, não dão valor a esses bichos, podem até usar uma fêmea de cabeça suja, mas muito raramente. O Molkentin é radical, o Mannes não usa pássaros com cabeça suja, Lutolf uma coisinha ou outra, mas não na casa dele...

 

Eu vi na casa dele!!!

 

      Deve ter sido um ou outro, ele têm dois caras que criam pra ele, nesses caras têm coisas mais tipo teste. Têm um cara da Bélgica, Heylen, ele também não usa, porque lá eles não querem isso, o mercado mais novo, mais ingênuo aceita, mas o outro mais cascudo, já sabe que dali não vai tirar campeão, vai ser difícil, eles não querem sujar mais do que já tem, agora se você não tem nada, não tem pena, aí vê um bicho de cabeça suja, você precisa dele, você tem que ter em mente aquilo que você necessita. Tem que saber identificar isso, e selecionar de acordo a sua necessidade, esse é o principal problema dos criadores novos, às vezes eles compram bichos maravilhosos, mas na hora que vai selecionar, acasalar, vai tudo pro saco. Identificar o que você necessita é complicado.

 

10) Você têm cabeça sujas? Você cria com eles ?

 

      Tenho e crio, e não acredito que seja pecado, agora veja só, com intensidade é pecado, eu crio pra competir, pra levar pra uma exposição, isso é o importante. Não é pecado você criar com bicho com falta de marcação, opalecência, mas intensidade é pecado, um bicho sem bola é pecado, é que eu usei o exemplo do cabeça suja, que é o mais comum, e como eu estava falando dos mercados novos e mais cascudos, se vai exportar pra X, eles nem ligam, mas pra Y eles falam, "não queremos cabeça suja".

 

11) Quais são as caracteristicas importantes que você considera num bicho de qualidade?

 

      As características são conhecidas, mas o mais importante é que você tenha todas elas ou o mais próximo disso, não adianta ele ser fora de série com as bolas pequenas, ou cabeça suja, rabo caído, ou seja, o importante é o balanço.



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